O erro que quase pesou minha trilha em Ilha Grande RJ: aprendizados de um iniciante no mundo ultraleve
A região de Ilha Grande, no estado do Rio de Janeiro, é um paraíso para os amantes do trekking. Suas trilhas cruzam florestas exuberantes, levam a praias desertas e oferecem vistas deslumbrantes das montanhas e do oceano. Era difícil imaginar um lugar melhor para testar minha primeira experiência de camping ultraleve: a promessa de carregar menos peso enquanto aproveitava o que a natureza tinha de melhor parecia irresistível.
Cheguei cheio de entusiasmo e com uma mochila cuidadosamente planejada… ou pelo menos achei que estava. Mal sabia eu que um erro aparentemente simples mudaria toda a experiência. Hoje, olhando para trás, agradeço o que aconteceu, porque foi ali, sob o sol e ao longo das trilhas desafiadoras de Ilha Grande, que aprendi algumas das lições mais valiosas sobre o universo ultraleve.
O peso do despreparo: o erro que quase arruinou minha jornada
Eu havia passado semanas pesquisando sobre o conceito de camping ultraleve, lendo sobre equipamentos minimalistas, assistindo a vídeos e ajustando minha lista de itens para incluir apenas o essencial. Multiplicava cálculos na cabeça: seria aquela a escolha mais funcional e leve? Com a mochila pronta e pesando cerca de 7 kg (incluindo comida e água), saí de casa confiante de que estava preparado para enfrentar as trilhas e experiências que Ilha Grande oferecia.
Mas o problema começou antes mesmo de entrar na mata. Assim que desembarquei da embarcação em Abraão, percebi que algo estava errado. Embora a mochila parecesse leve ao carregar inicialmente, o calor intenso, a umidade e o esforço físico começaram a transformar aqueles 7 kg em um fardo. Meu erro? Subestimar a importância de adequar cada item à realidade do clima e do terreno.
O que eu trouxe — e o que deveria ter deixado para trás
O peso em si não era o problema, mas a funcionalidade e relevância de alguns itens escolhidos. Aqui estão algumas das decisões erradas que quase comprometeram minha trilha:
1. O excesso de roupas “para o caso de…”
Levei várias camisetas, shorts e meias extras, pensando nas condições de calor e umidade. Isso parecia ser uma decisão prudente à primeira vista, mas boa parte dessas peças permaneceu intocada. O que eu realmente precisava era de menos peças, mas de materiais técnicos, que secassem rapidamente e fossem versáteis. Em trilhas úmidas, o que importa é saber lavar e reutilizar, e não estocar.
2. Equipamentos que “talvez fossem úteis”
Incluí na mochila alguns itens que não eram ultraleves — ou sequer necessários — baseando-me em “vai que” (como uma lanterna robusta que mal foi usada). Quando você tenta estar preparado para todas as eventualidades, acaba carregando peso que raramente se justifica. Um equipamento mais compacto (como uma headlamp) substitui uma lanterna maior e cumpre as mesmas funções.
3. Alimentos mal calculados
Na ânsia de não faltar comida, levei mais do que precisava, mas acabei escolhendo opções volumosas e pouco práticas, como frutas frescas (muito pesadas em comparação às desidratadas) e biscoitos em embalagens grandes. Substituir esses itens por porções fracionadas e alimentos liofilizados teria sido mais inteligente.
O impacto do erro nas trilhas
A trilha que escolhi em Ilha Grande envolvia longos percursos com subidas e descidas, além de pequenos trechos de praias desertas e áreas rochosas. O calor, aliado à umidade, cobrou seu preço. Cada passo fazia a mochila parecer mais pesada conforme o suor escorria e os músculos se fadigavam.
Logo percebi que o cansaço não vinha apenas do peso físico. Era frustrante carregar itens que eu sabia que não usaria, equipamentos que estavam ocupando espaço e absorvendo minha energia. Foi nesse momento que a grande lição começou a emergir: cada item leva sua parcela de responsabilidade, física e mental. O verdadeiro ultraleve não é apenas uma questão de peso reduzido, mas de carregar aquilo que realmente agrega valor à sua jornada.
Como transformar um erro em aprendizado
Embora tenha enfrentado desafios intensos durante a trilha, aqueles dias em Ilha Grande se tornaram um divisor de águas no modo como encaro o minimalismo e o camping ultraleve. Aqui estão os aprendizados que me acompanham até hoje:
1. Planeje com base no clima e terreno
Cada trilha é diferente, e seu planejamento precisa refletir isso. Em Ilha Grande, o calor e a umidade eram os maiores adversários, o que significava que deveria ter priorizado o uso de roupas técnicas leves, boa hidratação e preparo para o suor constante. Entender o ambiente é essencial para montar uma mochila funcional.
2. Teste seu equipamento antes de sair
O entusiasmo com novos equipamentos pode levar a surpresas desagradáveis. Teste cada item ao menos uma vez antes de usá-lo em uma trilha longa. Isso evita levar ferramentas ou roupas que você nunca vai usar porque não são adequadas ou porque poderia existir uma alternativa mais eficiente.
3. Fracione e simplifique os alimentos
Uma das coisas que mais pesou na minha mochila foi o excesso de comida sem planejamento. Aprendi que analisar com precisão o número de refeições e calorias suficientes (sem exageros) é indispensável, optando por opções compactas e práticas, como barrinhas, nozes e alimentos desidratados.
4. Faça uma revisão final
Depois de montar a mochila, revise cada item. Pergunte a si mesmo: “Isso realmente será usado? É indispensável ou posso improvisar no lugar dele?” Essa simples reflexão pode eliminar facilmente 10% do peso que você ainda não percebeu estar ali.
Um reencontro com a leveza
Conforme completei a trilha e voltei ao píer em Abraão para pegar o barco de volta, algo mudou. Apesar dos contratempos, da frustração inicial e do esforço maior do que o necessário, senti que algo mais leve emergia de toda a experiência: minha mentalidade. O erro que carreguei só havia reforçado o propósito de buscar o essencial, tanto na mochila quanto na própria aventura.
Hoje, quando revisito Ilha Grande (porque é impossível ir apenas uma vez), cada trilha se tornou uma celebração da simplicidade. Minha mochila, reduzida ao essencial, reflete não só a filosofia ultraleve, mas um desejo de estar verdadeiramente presente no percurso. Não há peso extra para distrair, nenhuma preocupação supérflua para carregar. Apenas o caminho à frente.
Quando olho para esse aprendizado, fico grato. Carregar menos me ensinou a valorizar mais: mais conexão com os lugares, mais liberdade de movimento, mais clareza para navegar pelo essencial. Se você está iniciando no camping ultraleve, pode até cometer erros no começo — e está tudo bem. Aprender com eles, afinal, é o que realmente define sua jornada.
